domingo, 14 de fevereiro de 2021

Dia dos Namorados

 Neste dia dos Namorados, recebemos de presente, do professor Ricardo, um poema que fala de AMOR.


CANÇÃO FLAUTIM

Se gostasses de mim,

ai, se gostasses,

se gostasses de mim

— serenim —

era tudo alecrim.


Se gostasses de mim

— mirandolim —

eu morria. Morria?

de gozo no sem-fim.


E gostaste. Gostavas?

de mim.

Era tão sem aviso,

era tão sem propósito

— trancelim —

e eu saltava, delfim.


E dançava, tchim,

sem notar, ai de mim:

não era tanto assim.

Gonçalim.


Já não gostas de mim.

É fácil percebê-lo.

Vagueio pepolim

a caminho de nada.

Saponim.


Restaria o gerânio,

a senha no jardim?

O lenço ou a colcheia

no róseo bandolim

do ventre da joaninha?


Candorim?

Xerafim?


Mal gostasses de mim,

outra vez carmesim

eu morria, eu vivia

de gozo por três vezes,

mirá, mirandolim.













Pelo gozo passado

em faro de jasmim

— palanquim —

pelo gozo presente

no metal do clarim

— trampolim —

pelo gozo futuro

em verso folhetim

— farolim —

que farei deste sim?


Se gostares de novo

seremos o festim

no parque, na piscina

ou no estrapotim,

em relva entrelaçados

um tintim noutro tim

seremos o marfim

de lavor impecável

na infinda perspectiva

do fim.


Se não

gostares mais de mim

de mim de mim de mim,

sumirei na voragem

no báratro, no pélago

— votorantim —

no vórtice abissal

da tristeza total

do cálculo de rim.


Ah, se gostasses de mim!



Carlos Drummond de Andrade, Farewell

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